Graduação a Distância: indicadores, tendências e desafios

Mesmo com números promissores, ainda há desafios a serem enfrentados pela modalidade a distância como credibilidade, modelo acadêmico aderente, mensalidades cada vez mais competitivas e evasão acentuada

O ensino superior a distância no Brasil ainda pode ser considerando embrionário, porém os dados do censo nos últimos anos revelam crescimento significativo na graduação. Esse movimento se dá no mesmo ritmo em que instituições de ensino se profissionalizam, melhoram seus projetos acadêmicos e suas tecnologias.

Ao considerar o período de 2005 a 2010 encontramos um crescimento de alunos matriculadosna graduação na casa 52% (CAGR), em média ao ano, enquanto que na modalidade presencial o crescimento ficou na casa dos 4,2%, no mesmo período.

A modalidade a distância em 2010, no Brasil, já atende quase 15% dos alunos matriculados na graduação, esse desempenho vem crescendo ano a ano. Em 2005, essa proporção não passava de 2,5% dos alunos.

Com tantos indicadores positivos, parece que a bola da vez do ensino superior é a modalidade EAD, então muitas instituições despertam para aproveitar a oportunidade, porém fica uma pergunta: Será que o mercado de ensino a distância é tão amplo que comporta a atuação de muitos competidores?

Em nossa jornada de consultoria por todo país, podemos verificar que poucas IES são bem sucedidas na modalidade presencial e EAD, simultaneamente. O principal problema é ficar na tentativa de replicar o modelo presencial na modalidade a distância, esquecendo que o público do EAD requer uma gestão totalmente diferenciada; que o perfil de profissionais (docentes) e o perfil de estudantes são distintos.

Um levantamento feito pela Hoper, onde foram feitos grupos de discussão com alunos de instituições que possuem ambas as modalidades, revela um fato muito interessante, pois o nível de canibalização da modalidade a distancia e presencial chega próximo a zero e o motivo é simples: o perfil de aluno matriculado no EAD difere do estudante presencial.

Com exceção das licenciaturas, 90% dos alunos do EAD declaram jamais fazer um curso de graduação nos moldes tradicionais, ou seja, presencial. Normalmente esse público não está muito preocupado com o preconceito ainda existente na modalidade, pois procuram qualificação profissional para ascender na sua função. Vale destacar que 80% já iniciam o curso exercendo atividade remunerada, contra 48% na modalidade presencial.

Contudo, é preciso entender que não é fácil encarar um curso de graduação na modalidade a distância, pois disciplina, motivação e determinação são os elementos críticos para o sucesso da empreitada, segundo opinião de alunos matriculados na modalidade EAD.

Outra diferença significativa é o perfil socioeconômico: os alunos do EAD apresentam renda familiar 43% menor que os alunos matriculados na modalidade presencial e as mensalidades praticadas são até 55% menores, quando comparadas aos cursos presenciais.

EVASÃO

Todas as peculiaridades do ensino a distância nos remetem a uma questão muito difundida, e de extrema importância, que causa grande impacto setor educacional superior: a EVASÃO. Por não ter um critério chancelado pelo MEC, geralmente cada instituição possui a sua forma de gerar esses indicadores de desempenho, dificultando a comparação. E essas dificuldades só aumentam quando caminhamos para o ensino EAD. Então, nesse estudo utilizaremos um critério muito simples, porém nos permitirá entender algumas peculiaridades do EAD, de forma comparativa com o presencial.

Na tabela abaixo consta informações do número de ingressantes (calouros) e do número de concluintes (formandos), de acordo com o tempo de integralização do curso de Administração. Assim conseguiremos identificar, por exemplo, a quantidade de alunos ingressantes no ano de 2007 e quantos chegaram ao final no tempo normal que seria em 2010.

Rede Modalidade Curso Ingressantes 2007 Concluintes 2010 Evasão no Ciclo
Privado EAD Admistração 28.377 6.732 -76,28%
Público EAD Admistração 14.570 1.690 -88,40%
Privado Presencial Admistração 199.534 103.024 -48,37%
Público Presencial Admistração 17.981 9.955 -44,64%

Fonte: Censo INEP 2007 e 2010.

Podemos constatar que apenas 23,7% dos alunos que iniciam Administração, na modalidade EAD do ensino superior privado, concluem o curso no prazo normal de integralização. No setor público é ainda pior: pouco mais de 11% chegam ao final do curso.

A modalidade presencial apresenta elevados índices de evasão, porém bem mais favoráveis quando comparado ao EAD, pois 51,7% do setor privado e 55,3% do setor público chegam a concluir o curso no prazo de integralização normal do curso.

Ainda há desafios a serem enfrentados pela modalidade a distância como credibilidade, tecnologia, modelo acadêmico aderente, mensalidades cada vez mais competitivas, evasão acentuada, entre outros.

Com tantos desafios para o ensino a distância, cabe um questionamento: Essa modalidade de ensino veio para ficar? Como será o ensino nos próximos anos?

Infelizmente não podemos garantir, porém pesquisas mostram que a modalidade vem quebrando barreiras apresentando bons resultados, inclusive indicadores do MEC. Segundo pesquisas realizadas pela Hoper, estudantes de Universidades Premium não consideram a modalidade EAD em seu processo de escolha, porém acreditam que é uma questão de tempo para que ganhe credibilidade e reconhecimento.

Romario Davel é consultor associado da Hoper, atua nas áreas de Avaliação Mercadológica e Planejamento Estratégico. Graduado em gestão financeira, com MBA em Gestão de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas FGV/RJ. Especialista em avaliação mercadológica de IES.

Contato: romario@hoper.com.br